A Era das transações complexas
NEWS E INSIGHTS
7 de ago. de 2024
8 minutos de leitura
Do escambo aos pagamentos instantâneos, achamos que evoluímos. Mas enquanto celebramos a facilidade de pagar com um toque, uma revolução silenciosa está transformando a essência das transações. A maior empresa de hospedagem não tem travesseiros, a maior de transporte não compra gasolina. O que isso revela sobre o futuro do dinheiro e por que sua empresa pode não estar preparada para o que vem por aí?
Do escambo até os pagamentos instantâneos, a humanidade evoluiu a passos largos e grande parte do estilo de vida moderno é possível graças ao acesso cada vez mais facilitado ao consumo. E para garantir esta evolução, a facilidade em pagar também é fundamental.
Uma transação nada mais é do que a troca de valor entre indivíduos e empresas, atrelada à entrega de algum produto ou serviço. Na era dos smartphones com internet ultra rápida e amplamente disponível, entretanto, uma transação passou a ser mais do que isso e o jeito de consumir mudou - nos últimos 10 anos, em especial, mudou radicalmente.
O que a superfície esconde é que embora os pagamentos também estejam cada vez mais fáceis, transparentes e instantâneos, as transações estão cada vez mais complexas. E isso acontece por conta da Nova Economia.
O apego à propriedade de bens deu lugar à busca por experiências.
Isso permitiu que as empresas de crescimento mais rápido da história moderna rompessem completamente as premissas seculares em que os gigantes do passado foram construídos.
Já parou para pensar que a maior empresa de hospedagem do planeta não possui um único travesseiro sequer?
Ou que a maior empresa de transportes do planeta não gasta um centavo com gasolina?
E ninguém estava preparado para essa mudança.
A economia compartilhada transformou não só o consumo, mas também as relações de trabalho. Por consequência disso, estão ocorrendo, também, mudanças nas relações com fornecedores e em toda a cadeia produtiva.
Os modelos de negócio não são mais os mesmos, graças à internet. E a evolução das transações será a próxima fronteira.
Transações Complexas
O que quero dizer com isso é que, estamos migrando enquanto sociedade para transações cada vez mais complexas com diversos participantes em diferentes camadas.
Para que um simples pedido de comida com pagamento transparente pelo seu aplicativo preferido chegue na sua porta, muitas entidades do mundo real precisam reorganizar suas relações - e sua relação com o dinheiro.
O desafio não está mais em receber do cliente.
O complexo está no que acontece depois: um pedido, um pagamento, várias transações.
Nos últimos séculos, o conceito de "dinheiro" deixou de ser especificamente moeda, metal ou papel. Pois, assim como nos primórdios em que as transações eram feitas por escambo, "dinheiro" voltou a ser qualquer coisa que possa ser usada como medida de valor e meio de troca entre pessoas e empresas, para o consumo de bens e serviços.
Com o avanço da tecnologia, então, o conceito de dinheiro deu mais um salto, agora para um conjunto de dados alfanuméricos garantidos em algum sistema eletrônico.
Embora pareça que o "dinheiro" evoluiu, as transações nem tanto.
Gestão financeira com "cabeça de banco"
Nos modelos de negócio tradicionais, baseados na lógica cliente/fornecedor, uma empresa compra de seus fornecedores, transforma a matéria-prima e vende com uma margem de lucro aos seus clientes.
Qual é a relação entre consumidores e fornecedores? As etapas com cada um não estão ligadas, portanto não há uma relação direta e um jamais precisa saber da existência do outro. Nasce, assim, a gestão do fluxo de caixa - peça fundamental para que as empresas possam administrar os diferentes ciclos do dinheiro entre receber e pagar.
Como cada relação tem sua peculiaridade e seu tempo, para sanar eventuais questões de descompasso entre estas duas relações, surgem as operações de crédito.
Até aí, tudo bem. Acredito que todos que estejam lendo este artigo estejam familiarizados com esta história. Porém, na Nova Economia, a lógica cliente/fornecedor foi rompida. As empresas que antes possuíam um papel centralizador na prestação de algum serviço ou venda de um produto, agora passam a atuar como intermediárias entre os consumidores e os detentores dos ativos reais. As transações precisam refletir essa nova dinâmica. Ou seja, não basta mais o dinheiro apenas "chegar" em quem deve chegar.
Desde o nascimento de uma venda até a sua conclusão, meses podem se passar. A gestão do dinheiro ao longo deste tempo de forma transparente para todos os envolvidos é a grande questão a ser resolvida hoje em dia.
E aí que surgem as questões mais complexas que quero provocar neste artigo:
Como pode uma empresa antecipar recebíveis de transações que "não são suas", apenas uma fatia?
Como um banco poderá avaliar histórico de vendas de forma analítica, se os fluxos de recebimento são em blocos?
Se no conceito atual da sociedade o dinheiro é um dado alfanumérico garantido por algum sistema eletrônico, não seria o conceito de "banco" uma mera instituição de custódia, empréstimo e troca de dados digitais?
Agora, uma pergunta final:
E se esses dados representam serviços, não seriam então todas as "plataformas" atuais equiparadas ao mesmo conceito de "banco"?
Acredito que esta é a mudança que acontecerá nos negócios da próxima geração: a gestão financeira com "cabeça de banco". Ocorrendo de maneira totalmente eletrônica, garantindo transparência e viabilidade para os participantes do seu ecossistema.
Importante ressaltar que não estou me referindo ao movimento de "fintechzação" ou que empresas virem bancos e passem a ofertar serviços financeiros. O ponto é abordar a evolução necessária nos processos de gestão financeiras, que já não são mais suficientes os tradicionais "contas a receber/contas a pagar".
É sobre ter a capacidade de receber pagamentos, fatiar e individualizar as transações derivadas para que o serviço seja prestado ao consumidor, enquanto todas as entidades envolvidas possam ter visibilidade, controle, acesso e a titularidade de cada fatia que lhe pertence será o novo normal para as próximas décadas. É sobre ter dinheiro de terceiros circulando dentro da empresa, mas com estruturas próprias e apartadas daquele que é o dinheiro de fato do negócio.
E para isso novos sistemas transacionais precisarão ser construídos, com a capacidade não só de capturar, aprovar e liquidar, mas de gerenciar todo o ciclo de vida das transações até o fim.
A premissa básica de um consumidor passando seu cartão em um estabelecimento comercial já ficou para trás.
A era das transações eletrônicas, massificadas pela indústria de cartões e potencializada pela recente onda digital e descentralizada dará lugar à terceira onda de inovação: a era das transações complexas.
AUTOR
Arthur Silveira
Arthur Silveira é CPO da Slice. Empreendedor serial, especialista em negócios e soluções de pagamentos. Slice: AI-powered ledger for enterprise.
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